El Reloj Sin Agujas

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Levei muita rasteira de mim mesmo e dos outros até começar a entender como as coisas funcionam, mais ou menos, dentro da nossa cabeça... Daí, percebi também que as pessoas não são tão diferentes umas das outras. Foi à custa de muitos tapas na cara que sei o quase-nada que sei hoje sobre mim mesmo. (...) Já franzi muito a testa até aprender a relaxar e parar de negar coisas óbvias como: Papai Noel não existe, nem o Coelinho da Páscoa, meu pai não é meu herói, nem minha mãe é uma santa, minha irmã não é mais virgem, meu irmãozinho não é tão 'zinho', meus conhecidos não são meus amigos, e meus amigos são mais que simples amigos. É ruim aceitar de verdade que eu não sou a melhor pessoa do mundo, nem sequer a mais bem intencionada... Sou uma mistura de reticências e etcétera. Quem sabe, um angiograma ou um angiosperma. Para alguns, uma úlcera.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

SEGREDO DE SOL SE PÔR

Se por acaso for o caso
De cochichar bem baixinho
Falando mansinho em um tom pequenininho

Cuida para que não seja carinho
Nas nuvens tudo é macio feito algodão
Colchão de espuma ou mola e toque de mão

Segredo de liquidificador
Contado à luz de sol se pôr
Pode virar livro de amor

Fortaleza, setembro de 2010.

domingo, 26 de setembro de 2010

CONTRAMÃO

Sem sentido
é quando batemos com a cara contra o muro
em um beco sem saída?

É como engolir um peixe inteiro com espinha
e engasgar-se com o ossinho da galinha?

Mesmo na contramão há sentido, o oposto ao nosso!

Fortaleza, setembro de 2010.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

FORCA (o joguinho)

Nem uma corrente de ar
Nem um tubo para respirar
Sentir a cabeça apertar
O olho estufar
O olhar esvaecer
O corpo amolecer
O sentido desfalecer
Não acordar
Apenas a corda no ar

Fortaleza, setembro de 2010.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

MATUR-IDADE

Sobriedade da idade
Sem maldade e sem vaidade
Nada queima de verdade

Só morno sem copo o corpo
Nada mais que um contorno

Sorriso demente
A alma nem sã nem doente
Faz parar o sangue na mente

Confuso expirado
Difuso fora de uso

Fortaleza, setembro de 2010.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

RESSONÂNCIAS

Somente a sombra da desintegrada honra
Que cai ao ritmo ofegante das horas

Sem força o ponteiro não anda
O disco arranhado já não gira de pesado

O balanço não balança
A hora não dança
Não mais tenho nos olhos
De brilho inocente criança

Reminiscências de um soluço
Daquele antigo pensamento moço
Agora ruído que de longe ouço

Fortaleza, agosto de 2010.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

DO SAL

Salgada é a água do mar
O tempero do molho de assar
Salgado é ovo para fritar
A lágrima que não quer pingar
O grito que teimo em calar

Fortaleza, setembro de 2010.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ROLETA RUSSA

Retratos recortes
Dados viciados
Manuseados por mãos fortes
Dedos curtos e vidas
Entregues à sorte
Cutucam a vara querida
Zombam da própria morte

Fortaleza, setembro de 2010.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

DO SEGREDO

Segredos guardados a sete chaves
Segredos falados baixo ao pé do ouvido
Em melodias de notas e claves

Segredo daquele que dá medo
Silêncio guardado na ponta do dedo
Que sibila e que toca a boca
Que mata gente quão serpente

Segredo que dá de fazer escondidinho
Sozinho a dois a três segredinho
Ou segredo sagrado bandido
Que do vulto popular já nasce banido

Segredo que assume forma de sombra
E segue persegue cuidadosamente velado
Ao passo que ao deslize do tambor desarmado
Pode sair a mil aos quatro ventos soprado

Fortaleza, agosto de 2010.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

PRESENTE DE GREGO

Taça rachada saia rasgada
A meia furada cair da escada
Entortar o bico da espada
Garfo torto bicho morto
Espelho quebrado disco empenado
Relógio parado garrafa vazia
Guimba queimada rotação alterada
Fogueira molhada lareira apagada
Bico do tubo de catch up entupido
Palito de dente mordido
Palito de dente sem ponta
Sela que a gente não monta
Espirrar em público
Medir em metro cúbico
Nadar sem sair do lugar
Fazer sexo e não gozar

Sensações como esta
De sair no final da festa
Depois de vomitar
Quando a banda já parou de tocar

Agora que o sino bateu
Não sei onde se perdeu
Mas se achar não devolva
Porque esse não é meu

Fortaleza, agosto de 2010.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

DA TERRA

De grilo de rã
De sapo-cururu
De caipora e tuiuiú
De névoa seca de manhã

De dama e de cunhã
De hoje de amanhã
De vizinha e de tardezinha
Do banho de riacho à noitinha

Do procuro mas não acho
Dos cabelos da trança e do cacho
De boca e de beiço sem dente
Do pensador de repente

Da mãe com filho doente
Do pai que espera impaciente
Virar homem o filho adolescente

A todos pertence esta terra
Do mais verdejante vale
A mais destemida serra

Fortaleza, agosto de 2010.