El Reloj Sin Agujas

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Levei muita rasteira de mim mesmo e dos outros até começar a entender como as coisas funcionam, mais ou menos, dentro da nossa cabeça... Daí, percebi também que as pessoas não são tão diferentes umas das outras. Foi à custa de muitos tapas na cara que sei o quase-nada que sei hoje sobre mim mesmo. (...) Já franzi muito a testa até aprender a relaxar e parar de negar coisas óbvias como: Papai Noel não existe, nem o Coelinho da Páscoa, meu pai não é meu herói, nem minha mãe é uma santa, minha irmã não é mais virgem, meu irmãozinho não é tão 'zinho', meus conhecidos não são meus amigos, e meus amigos são mais que simples amigos. É ruim aceitar de verdade que eu não sou a melhor pessoa do mundo, nem sequer a mais bem intencionada... Sou uma mistura de reticências e etcétera. Quem sabe, um angiograma ou um angiosperma. Para alguns, uma úlcera.

sábado, 31 de julho de 2010

DO CHORO

Lágrima
Da casta a mais pura
Arrasta molesta
Na cara o franzir da testa

Seu ar sem frescura
Sem frescor
Anestesia com dor
Uma saudade sem amor

Um nó o torpor
No miolo da cabeça
Como se na quarta
Ainda ouvisse o samba de terça

Das velhas cordas de aço
O mais fino descompasso
Do som da palheta quebrada
O choro na madrugada

Fortaleza, julho de 2010.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

MUDO MUNDO (SILÊNCIO E PAZ)

Morder o lábio o beiço o travesseiro
Calar a todo volume
Sair a galope ligeiro
Um golpe um tropeiro

Sentir como um leão furioso
Soltar um respirar frívolo gozoso
Dispensar a palavra ganhar a vida em gesto
Repousar as letras em um sono o qual não molesto

O mundo em silêncio
Silêncio de coerência
De medo e segredo silêncio
A vida em um livro aberto

Na longa trilha um passo certo
Decência inteligência malemolência
Silêncio um passo à frente da consciência
Paciência o contorno da existência

Fortaleza, julho de 2010.

SÁBADO

Vida nua
Verdade crua
Saudade tua

Fortaleza, julho de 2010.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

BEM-VIVER (CAIR SEM APODRECER)

Não ater nem deter
Sequer ter ou saber
Crer que mesmo sem querer
Sem dizer nem sei o que

A nossa pressão sobe e desce
Uma unha na mão cresce
A outra no pé apodrece
O dente que nasceu amolece
Cai e não cresce
Se não cair apodrece

É isso
Dizer crescer subir descer
Amolecer cair sem apodrecer
Mesmo sem querer
Até mesmo sem saber
Isso assim é que é viver

Fortaleza, julho de 2010.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

ISENTO

De sentido amargo
Só um trago mal pago
Não mais que um vago afago

Que de ti não se sente ardente
O trincar dos dentes
Possíveis atentos

Ao tempo e ao movimento do vento

Movimento o momento
Do não pensar

Parar de sentir me ausentar
De olhar de ver de tentar enxergar
De ouvir de cheirar de saber o gosto

No espelho
De ter que ver o rosto
De todos os rostos que gosto

Eximir-se de um mundo
Que na fração de um segundo
Pode te arrastar ao fundo

Fortaleza, julho de 2010.

terça-feira, 13 de julho de 2010

VERDADES RUAS

roucas as bocas
a roçar línguas loucas
vozes a falar a calar

fumaça cachaça
balburdia pirraça

um corpo que abraça
o outro que passa
um corpo que afaga
o outro que apaga
um que apraz
outro que jaz

Fortaleza, julho de 2010.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

DESENTALOS

Desentalar
Tiquetaquear

Cair leve, andar
Balançar, balançar
Sem dormir, sem sonhar

Espinha de peixe, jangada
Lançar a rede à parede, deitar
Enjôo de mar, de berço, saudade

O sal da idade, cidade, de ir e voltar
Correr e parar, às vezes, tropeçar

Lançar a rede à parede, deitar
Espinha de peixe, jangada
Sem dormir, sem sonhar

Balançar, balançar
Cair leve, andar

Tiquetaquear
Desentalar

Fortaleza, julho de 2010.

domingo, 11 de julho de 2010

ANGELUS

O sol já não mais arde
No sino o alarde
São seis horas da tarde
Hora de rezar

Fortaleza, julho de 2010.

DO SILÊNCIO

Digo mais nada!
De boca calada e carta selada,
não há o que se escutar.

Fortaleza, julho de 2010.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

VOLUPTUOUS DEI

abrupto meio corrupto
quase um susto
entre as putas e as batutas
um coreto próximo ao altar

de novo volta à puta
na majestosa luta
difícil quando mal andamos
e nem mãos nos damos

nada rima melhor com meus ais
meu cais e sais minerais

aí é bem bacante
bacana sacana
bom de cama

Fortaleza, julho de 2010.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

DA LIBERDADE

Soltos os nós que te prendiam ao chão
Posso voar saltar correr com paixão

Rir ou chorar
Andar sem cueca
Nadar como perereca

Banhar-se na água do riacho
Sem perder das uvas um cacho

De bananas as pencas
Das molecadas as rencas

Intensamente irrigar o chão semente

Dar corda e acordar
No relógio badalar

Sem diferenças não há mais
Nem menina nem rapaz
Entre céu e terra todos iguais

Poder vagar errar sem direção
Passos leves às vezes fortes demais
Guiados pela total falta de razão

De cada canto um acalando
Berço mar revolto
Hoje sou um bicho solto

E fazer o pranto secar
Com cristalinas gotas de ar

Fortaleza, julho de 2010.