El Reloj Sin Agujas

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Levei muita rasteira de mim mesmo e dos outros até começar a entender como as coisas funcionam, mais ou menos, dentro da nossa cabeça... Daí, percebi também que as pessoas não são tão diferentes umas das outras. Foi à custa de muitos tapas na cara que sei o quase-nada que sei hoje sobre mim mesmo. (...) Já franzi muito a testa até aprender a relaxar e parar de negar coisas óbvias como: Papai Noel não existe, nem o Coelinho da Páscoa, meu pai não é meu herói, nem minha mãe é uma santa, minha irmã não é mais virgem, meu irmãozinho não é tão 'zinho', meus conhecidos não são meus amigos, e meus amigos são mais que simples amigos. É ruim aceitar de verdade que eu não sou a melhor pessoa do mundo, nem sequer a mais bem intencionada... Sou uma mistura de reticências e etcétera. Quem sabe, um angiograma ou um angiosperma. Para alguns, uma úlcera.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

MATINAL

Ontem me vi velhinho
Lendo o jornal com atenção
Sentado à frente da televisão

Cortando os pelos do nariz
Um velhinho um tanto feliz

Um lenço macio atoalhado para que possa
Mãos meio trêmulas e com cuidado
Limpar meus óculos de lente grossa

Uma patroa cortando-me as unhas do pé
Um colo quente a me fazer cafuné

Uma raiz minha de bebê o cordão
Com um caule forte presa ao chão
Que em um susto como os meus grisalhos
Cresceram da noite para o dia seguinte
Vi-me na vida um ouvinte

O passeio matinal com brisa leve e sol manso
Uma parada na padaria assim não canso

O pão quentinho vem em saco de papel
Vai ganhar em casa
Manteiga geléia ou mel
Pego a bengalinha e arrumo o chapéu

Ao chegar o café quentinho
Queijo branco e ovo mexido
Com pão bem casadinho
O remédio da pressão
E um tranqüilo cochilinho

Fortaleza, junho de 2010.

terça-feira, 22 de junho de 2010

PÃO QUENTINHO DE PADARIA

Sair de ti e de mim
Como quem diz a que vim
Em um dia assim
Sem muito não com um sim

Misturar ingrediente
Pôr na forma de fazer gente
Levar ao forno pré-aquecido
Das luvas esquecido

Fazer crescer o fermento
Inchar a massa e esperar
Moldar esculpir com a mão
Pinceladas de doura-pão

Esperar mais um momento
Depois assar e desenformar
Em superfície de papel manteiga
Eis a arte de procriar!

Fortaleza, junho de 2010.

domingo, 20 de junho de 2010

BOLHAS E ESCOLHAS

Sorte por se estar só
Não ter batata quente na mão
Se o vento sopra em uma só direção
Decidir pra que?

Não precisar dizer o que fazer
Não ter que fazer o que forem dizer
Dar ou ter satisfação
Satisfação pra que?

Nada mais perturba o sono
Nem ronco nem trovão
Nem mola de colchão
Sorte ou solidão?

Fortaleza, junho de 2010.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

DE SÃO PAULO A MARANHÃO (Sinon)

Sinon
O que falar de Sinon
Tudo de si non
Si non
Só coisas

São Paulo diz sim
São Paulo diz não
Dia vai à paulista
Vai-se a Paulista
Diz nunca não vai mas dia de culpa é sua

Há foda na paulista
Ou se fôda em outra direção
Ou não
Eu me fôdo no resto
Na paulista nunca não

Vou fazer isso
Vou na paulista pra bater no coração
Talvez dia sim talvez dia não
Não ela se lembre d’Eu
Dia som dia não

Sem sequer tocar o chão


Fortaleza, junho de 2010.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

ÚNCIO

Anúncio
Prepúcio
Longo ou curto
Faz único
Úncio
Úncio é vida
É ferida
Cicatrizada ou não
Úncio é perdão
É o que faz acontecer
Liberta não põe na prisão
Úncio
Faz da vida um Úncio
Senão
Eu núncio
Um não
Vermelhidão
Da vida
Do chão
Do livre sim e do não
Sem Úncio
Está-se sozinho
Sem boca
Sem sim nem não
Sem ser livre e sem perdão

Fortaleza, junho de 2010.

domingo, 13 de junho de 2010

TACONES LEJANOS

De salto eu grande
Eu alta eu pequena
Seja menina ou um simples de cabelos grandes poema
Uma menina mulher
Seja ela o que quer
Fica lá fica cá
Vai e volta
E dança e encanta
Ela brinca
Ela samba
Respira Buenos Aires
Fala espanas canções
De brotos botões
Palomas e plumas
De águas e brumas

Para Palomita Toimil.
Fortaleza, junho de 2010.

MEIO ÁRVORE MEIO CHÃO

Eu vi uma árvore que floresce pela metade
Mesmo no inverno
Mesmo no verão
Metade dá flor sim
Metade dá flor não

Seja seca ou chuvão
Ela é meio louca
Tá sempre assim
Flor sim flor não
E nem é árvore de flor

Mas é árvore
Brota do chão
Então é igual
A todos os pés
De rosas gerânios ou qualquer flor em botão

Sou árvore
Metade de mim virou flor a outra não

Fortaleza, junho de 2010.

DIA-A-DIA (FAIXINA)

Pensar
Tentativa quase útil
De tornar mais agradável
O que todos chamam fútil
Ou vulgar

Colocar tudo em seu lugar
Tentar arrumar
Distribuir e organizar
Palavras de ordem do dia

Dia-a-dia
Queria ah como eu queria
Que da mais profunda alegria
Fosse simples assim
Minha melancolia

Fortaleza, junho de 2010.

sábado, 12 de junho de 2010

LUMINESCÊCIA - LUZIR

Sair do ventre
Difícil
Quando uma vez se diz entre

Parto e aparto
Pernas e vidas
Ditas queridas aparecidas

Dantes semente doravante sente
Alimente aumente impotente
A mente no peito não mente

O leite deleite
Dê leite
Sombra e som

No choro a mão
Da mãe o pão
O sim quando não
O cheiro no colchão
Pro sono a canção

Fortaleza, junho de 2010.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

DELUXE

Sofisticação
Não vais querer saber
Não vou saber dizer
Coisa ligada à psiquê

Champagne oxalá
Tomar saquê comer caviar
Querer algo pra relaxar
Caipirinha nem pensar

Ofurô óleos e sais
Terapia com cristais
Vittel St Pellegrino Evian Perrier
Outros minerais

Nostalgia da indigência
É saudade da pobreza
Isso aí meu rapaz
Sofisticado demais

Très sofistiqué!

- Sofis o que?

Fortaleza, junho de 2010.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

FÉ OU BICHO-DE-PÉ

Fé é fé
Não é café
Nem bicho-de-pé

Saci-Pererê Curupira Caipora
Duende Fada ou Nossa Senhora
Há sempre uma crença
Na cabeça de quem pensa

Não crer em preguiça doença ou maledicência
Crer em força amor e inocência
Compaixão felicidade decência
Crer em doação saúde e paciência

Acreditar na mente visão e coração
Da boca sai sempre uma oração
A fé está na alma no pulmão e na palma da mão
Por que não?

Fortaleza, junho de 2010.

SOLTO

Desenlaçar o laço do sapato
Soltar os freios
Descer da alegoria e parar o carro
Que mascara o tato o olfato

Sentir o gosto lavar o rosto
Olhar-se no espelho sem o batom vermelho
Deixar a tez respirar o nariz espirrar
Fazer o cabelo despentear

E espiar pelo buraco da fechadura
Onde cabe a chave
Que abre a porta
E deixar a vida entrar

Fortaleza, junho de 2010.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O CÁLICE

Mim apaixonado
Menos falante
Mais calado

Da silhueta ao lado
Minha língua mole
Mais um gole

Fortaleza, junho de 2010.

NEM TULIPAS NEM LÍRIOS NEM MARGARIDAS

E eu aqui
A escrever poemas bravios
Que não navegam por rios
Nem por mares

Soluçam em cantares
Que da mais pura alma
Caso desejares
Poderás te apossar

E se calares
Um leve toque de marzipan
Far-te-á acordar pela manhã

Com a certeza de que nesse dia
Nem tulipas nem lírios nem margaridas
Trar-te-iam igual sabor à vida

Fortaleza, junho de 2010.

terça-feira, 8 de junho de 2010

SOBREPOSIÇÕES

Cortar as incertezas
Olhar e agir com mais clareza
Perder no som o sentido da beleza
De uma existência sobreposta

Onde máscaras
Sobras e contos de sorte grande
Desviam-se do altar gigante
Que exalta a força da balsa
Flutua sobre a espada tua

Na órbita desfigurada
De uma vivência trocada

Fortaleza, junho de 2010.

MANGUE

Tristezas mal contidas no tremular das palavras
No olhar hesitante
Na pausa constante

Um nó de marinheiro
Bem onde de um modo verdadeiro
Deveria sair esse dissabor primeiro

Soletrar ou torturar sinuosas vogais
Que em consonâncias mortais
Apreende-nos em angústias e lágrimas de sangue

Como um caranguejo de mangue
Submerso na lama faço minha cama

Fortaleza, junho de 2010.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

TAPA

Tapa na bunda
Tapa de tara
Tapa dispara
Cinco dedos na cara
Pra açoitar
Tapa pra calar
Pra fazer falar
Pra abrir ou pra tapar
Se estapear
Dar uma tapa tapinha tapão
Com a mão ou com outro membro
Sei não

Fortaleza, junho de 2010.

domingo, 6 de junho de 2010

LES ANGES

Les étrangers,
les être un jour.
Sont à toi, sont pour moi.
Les êtres anges sont partout,
sont des rois sont à moi.
Les étrangler par la voix
de la loi, car parfois,
l’étranger n’est que moi.

Fortaleza, junho de 2010.

BOCA

Quem tem boca vai a Roma
A Roma e a qualquer outro lugar
Porque boca é pra viajar
Pra falar e pra comer
Pra lamber e pra chupar
Boca serve pra se lambuzar
Por isso quem tem boca vai a Belém do Pará
E a Roma
Beije e coma
Sem parar

Fortaleza, junho de 2010.

sábado, 5 de junho de 2010

ACORDAR

Da alta armadura
Se salva a procura e uma loucura
Cáustico e distante
Do sonho do amante
Da fala desconstruída em um sonho
Na parede demolida
Um abraço tocar a mão
A saber o futuro perdido
O olhar trêmulo ir embora
A saber não poder o agora

Fortaleza, junho de 2010.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

SOBEJO

Sair de mim e de ti
Sair daqui
Ir para onde não haverá partir
Nem chorar nem falar
Trocar o correr por parar
Calar
Chegar
Deitar e sentir o vento soprar
Indo e vindo na direção do mar
O cheiro do teu pescoço
Comer a fruta e chupar o caroço
Lamber o beijo
Sugar teu sobejo
Nem ganhar nem perder
Só a minha paz e um desejo

Fortaleza, junho de 2010.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O PREGO

Sozinho como um prego
Vivo preso amarrado pregado
Em uma parede a estórias e um legado
De histórias e corações
De marchas e canções
Alimento-me de uma linha torta
Sustento uma rima morta

Fortaleza, 2010.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O VERMELHO DE VERDE E AMARELO

À mão estendida
Existência interrompida
Através do vidro um sinal
Luta entre o bem e o mal
À espera da hóstia consagrada
Forjada no vil metal

Do verde esperança a espera cansa
Amarelo cheira a ouro enquanto sol queima o couro
Reflexo do vermelho o sangue beijando o espelho

Fortaleza, junho de 2010.

terça-feira, 1 de junho de 2010

NOTAS DE AUSÊNCIA

Na saudade e no desespero
Nunca se encontra um jeito
De dizer não com esmero

Na seca garganta a palavra
A ressequida saliva
Que umidifica com sabor de oliva

Não sinto o teu beijo
Sequer um lampejo
De um mundo hoje sísmico

Desafinadas canções
Retorcidas por um desejo
De perdidos solfejos

Fortaleza, 2010.