El Reloj Sin Agujas

Minha foto
Levei muita rasteira de mim mesmo e dos outros até começar a entender como as coisas funcionam, mais ou menos, dentro da nossa cabeça... Daí, percebi também que as pessoas não são tão diferentes umas das outras. Foi à custa de muitos tapas na cara que sei o quase-nada que sei hoje sobre mim mesmo. (...) Já franzi muito a testa até aprender a relaxar e parar de negar coisas óbvias como: Papai Noel não existe, nem o Coelinho da Páscoa, meu pai não é meu herói, nem minha mãe é uma santa, minha irmã não é mais virgem, meu irmãozinho não é tão 'zinho', meus conhecidos não são meus amigos, e meus amigos são mais que simples amigos. É ruim aceitar de verdade que eu não sou a melhor pessoa do mundo, nem sequer a mais bem intencionada... Sou uma mistura de reticências e etcétera. Quem sabe, um angiograma ou um angiosperma. Para alguns, uma úlcera.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

MONTES

Que monte e desmonte
Aos montões
Rimas versos e óbvias canções
Rouquidões perfeições
Borboletas pequeninas
Lavando e ensaboando
No meu pomar
Corações e orações

Na fábrica de chocolate
A sereia canta
Sonhar-te

Fortaleza, 2010.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

SOU LÁ OU SOLAR

Hoje estou a fim de falar
De beber
De comer
De foder
Sem saber
Se amanhã solar ou
Se amanhã eu não sou lá
O não chovear
O não gargantear
Será meu ou de quem será?

Fortaleza, 2010.

NAMORO

Rir e rir até cuspir
Ir e vir até sair

Sorrir chorar
Rir gargalhar até soluçar

Soluço é chato
Ficar sem respirar é chato
Sem falar sou grato

Na mesa o prato
No chiqueiro o pato
No natal o peru
No chão eu e tu

Fortaleza, 2010.

domingo, 23 de maio de 2010

ALHOS E BUGALHOS

Escrever o que?
Eis que vês o que?
Querer ver o que?

Ver nascer
Ver crescer
Ver morrer

Ciclo da vida
Ciclo menstrual
Ciclo das horas
Ciclo diário
Ciclo mensal
Ciclo anual

Aniversário
Berçário
Aquário
Armário
Abecedário
Escapulário

Cabeçalho
Cabeça-de-alho
Alho é bom contra vampiros
Preciso evitar o alho!

Se bem que não
Vampiro é ruim pro sangue
E alho é bom pro coração!

Fortaleza, 2010.

sábado, 22 de maio de 2010

TER-SE IDO

Seca a ama
O tarado mama
Do artista a fama

Para a doença farma
Para a criança a arma
Para o guardador o carro

Do carregador o trocado
Do pintor o traçado
Da artesã o brocado

Da paisagem o já sido
Para quem foi o já ido
Para quem morreu o jazigo

De quem nasce o umbigo
Daquela música a dança
Da pessoa a lembrança

Daquela ama boa
No leito o deleite
Daquele único leite

Fortaleza, 2010.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

ISOLAMENTO

Quem chega primeiro
Beco sem saída
Ir e vida
Será a morte uma corrida

No lenço somente tchau
Na boca do gato miau
Do cachorro au au
Do meu amigo sal

Que coma a minha carcaça
Que beije a minha couraça
E desarme toda carapaça
Para que assim no novo molde

A quem seja que incomode
Esteja dado o mote
Para daí em diante
Por detrás ou doravante

Seja ele e eu só
Sozinho com a minha passagem
Comigo e a minha imagem

Ninguém escrevendo
Ninguém lendo
Ninguém gemendo
Ninguém escolhendo

Somente eu
Chovendo
Amanhecendo
Anoitecendo
Escorrendo
O sangue descendo
Minha garganta bebendo

Da carne o osso
Da fruta o caroço
De mim o troço
De vocês não posso

Fortaleza, 2010.

NADA INTENSO

Eu ainda não falei
Do cantar triste da seriema
Nem vou falar
Eu lá quero
Seriema aflita ouvir cantar

Parece que tá engasgada
Sai pra lá
Quero mesmo é me deitar
E no mais pra ser sincero
Nem sei se quero falar

Fortaleza, 2010.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

MAR DE CAL

O sorriso escondido atrás da montanha
O milagre a espera jogo de perde-ganha
Fixa a estaca no solo onde o rio pardo
Calcifica o sólido árduo
De um encantado crescer por não perecer
Sem voar das asas as linhas
Dos frutos colhidos
Na fonte onde fui perder as minhas
Inocente esquecido do solo banido
Em um mar de cal da água só o sal

Fortaleza, 2010.

VÍRGULA

Não paquero, cortejo
Não amasso, beijo
Não como, degusto
Não me apavoro, tomo susto
Aqui e ali

Não fodo, faço amor
Não cago, faço cocô
Não durmo, repouso
Não mijo, faço xixi
Aqui e ali

Não digo não, pondero
Não fico nervoso, espero
Não dou murro, dou soco
Não falo sozinho, sou louco
Aqui e ali

Sou assim, meio assim
Fraquinho, franquinho
De mim, tadinho!

Fortaleza, 2010.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

CALOR INTENSO

Chaleira em fogo alto
Água fervente
Café no bule
Mesa posta
Paixão demente
Sol quente
Nada disfarça
A dor no dente

Fortaleza, 2010.

GARANHÃO

Essa vox fresca orvalhada
Coisa boa coisa estranha
Garanhão que manha
Que manha que manhã

Fortaleza, 2010.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

ETÍLICA

Meu drink está quase pronto
E Eu estou quase tonto

Fortaleza, 2010.

QUERER

Saber receber ganhar
Sem pedir só se entregar
Recebendo sem saber o presente
Que te levará
Para lá para cá para longe
Junto ao mim junto ao mar
Junto ao luar espelho refletindo um olhar
Nele puro deleite o querer de um aceite

Fortaleza, 2010.

domingo, 16 de maio de 2010

DA VERDADE

Escorridamente mal dita
Escorre da mente bem dita

Fortaleza, 2010.

DA MENTIRA

Abjeta face escondida
Sorriso amargo
Passagem perdida
Lúgubre pretender enganador
De instantânea exaltação
Pensamento desvairado
Um cantar amontoado
Nota oblíqua distorcida
De uma súbita caída

Fortaleza, 2010.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

DAS PALAVRAS

Palavras que brindo
Palavras que brinco
Palavras que ouço
Palavras que mouco
Palavras que mudo
Surda à canção
Das palavras nada mais quero
Além de amor e perdão

Fortaleza, 2010.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

DO SOM

Sou solto revolto só
Próprio do dissabor
Apressado mas com amor
Cansado apático ou enigmático
A queda não sustenta o bem
O tombo não acolhe o mal
Corrente de sonhos rompida
Coerentes palavras escondidas
Corrida contra o tempo
Lutar com o cabelo oposto ao vento
Na janela
Passa ele repetidamente
Sem eira nem beira
Esvai-se
Mesmo que eu não queira

Fortaleza, 2010.

domingo, 9 de maio de 2010

IMPRENSA

É muito engraçado
Como sem ninguém ao lado
Simplesmente sai
Quase que atordoado
Palavras frases pensamentos
Meio que imprensado

Fortaleza, 2010.

E"Z"ERCÍCIO

Fazer poesia é escrever isso?
Queimar os neurônios até não agüentar mais?
Não quero escrever poesia
Quero acordar em ensolarado dia
De um frio que não me cause agonia
Dizer que estou feliz mesmo querendo
Que com o frio que está fazendo
O dia tivesse mais sol e mais alegria
Quero ser humano e cantar a mesma melodia
Reclamando que essa canção um dia
Possa tornar-se vigorosa poesia
Que nem meu queimado neurônio
Nem que já tivesse dado seu último suspiro dissesse
Esse poema
No auge da minha agonia
Seria o que logo logo eu saberia
Que somente em um certo dia
Cercado de sol ou ventania
Reclamações e agonia
É
O que eu chamo e para sempre chamaria
Vida

Fortaleza, 2010.

FIXO

Engraçado isso de alguma coisa ser fixo
Telefone fixo endereço fixo
O sufixo é fixo o prefixo também é fixo
E de fixo só somente o fixo
De que a vida não é fixo
O post-it não é fixo e amor não é fixo
Casa pai mãe irmão caixão vela e paixão não é fixo
Fixo é o que eu sinto agora
Porta adentro ou porta afora
Fixa e livre é a Conchita¹ que corre atrás de lagartixas no muro
Sem saber o que é presente ou o que é futuro

Fortaleza, 2010.
¹Conchita: a cadelinha vira-lata da família.

RIMA

Na mente um vácuo
E o que rima com vácuo
Deve ser nada pra fazer
Mas se fosse váculo ou suváculo
Rimaria com óvulo e óvulo rima com vida
Vida rima com sexo
Sexo com lampejo
Agora sim lampejo com desejo
Desejo de fazer coisa boa
Perdi a rima de novo
De novo rima com povo
Eu no meio do povo de novo
E quem nasceu primeiro
A galinha ou o ovo?

Fortaleza, 2010.

SANGUE

Tato poros nariz e pulmão
Por onde entra o ar por onde sai a canção
Boca unhas e dentes
Serrilhas de corte bem consciente
Sangue coração e pulso
Circular errante e latente
Não sente não mente corrente
Passa e conduz-me ao ar
Que traz teu cheiro me faz respirar

Fortaleza, 2010.

SOLO

O chão que te sustenta
Quando o fio arrebenta
Mesmo quando o pé não alcança
Indefesa a criança
Total descontrole do estar
Sensação completa de vagar
Vagar é como não ser
Viver não é rastejar
Correr voar saltar
Mesmo quando o chão insiste em escapar
Fica o espaço livre para navegar

Fortaleza, 2010.

RITMO

Poesia livre
Livre pra rimar
Rimar sem rimar
Fazer rir chorar fazer calar
Dois pra lá ou um pra cá
Que diferença isso faz
Quando o negócio é dançar

Fortaleza, 2010.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

ANSEIO

Poder dançar outra música
Cantar outra canção
Poder a cada dia receber um perdão
Das falhas navalhas
na carne
Despedaçada razão
Desperdiçada ilusão

Fortaleza, 2010.

sábado, 1 de maio de 2010

TERESA (SALGUEIRO)

Teresa canta
Encanta essa Teresa
E como Teresa canta
Grita gostosamente
Acaricia até a mente
Ô mulher semente
Semeia no seco
O coração de quem sente
Teresa é fogo
Fogo que eu vou
Calar nunca
Será?
Ah, Teresa
Alfama Céu de Mouraria
Beijar-te-ia

Fortaleza, 2010.

PASSEI-O

Passeio pelo meio
Bem no meio por onde passei-o
Estreito o caminho pá seio
Sozinho mesmo esteio
Passar novamente sem tocar o chão
Por onde passo e posso encontrar a paz
Ali dentro quente bem no meio

Fortaleza, 2010.

POLITICUS

Que me chupem as bruxas
Que me chupem as donzelas e os marmanjões
Só não me chupem vocês
Escrotões
Mandões
Chefes das confusões

Fortaleza, 2010.

PASSEIO

Lágrimas dançando ao bel prazer do vento
Explodindo na cara bombinhas de pólvora
Marcando com pintas pretas a fisionomia já cansada
Imóvel estática ao estalar das horas que só fazem castigar

O sabor da vida resumido ao momento
Por um tempo sem sustento
Bruscamente rompido pelo chamar da hora
Dúvida de se estar dentro ou se estar fora

Dócil seja a estrada
Dura sórdida insólita caminhada
Tua presença e teu alento
Fora do tempo e da gôndola que me leva

Sólida a paz que faz sacar a espada
E corta o fio no barco que me faz escapar e me leva ao mar

Fortaleza, 2010.