El Reloj Sin Agujas

Minha foto
Levei muita rasteira de mim mesmo e dos outros até começar a entender como as coisas funcionam, mais ou menos, dentro da nossa cabeça... Daí, percebi também que as pessoas não são tão diferentes umas das outras. Foi à custa de muitos tapas na cara que sei o quase-nada que sei hoje sobre mim mesmo. (...) Já franzi muito a testa até aprender a relaxar e parar de negar coisas óbvias como: Papai Noel não existe, nem o Coelinho da Páscoa, meu pai não é meu herói, nem minha mãe é uma santa, minha irmã não é mais virgem, meu irmãozinho não é tão 'zinho', meus conhecidos não são meus amigos, e meus amigos são mais que simples amigos. É ruim aceitar de verdade que eu não sou a melhor pessoa do mundo, nem sequer a mais bem intencionada... Sou uma mistura de reticências e etcétera. Quem sabe, um angiograma ou um angiosperma. Para alguns, uma úlcera.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

PARTICULES

lumière, des particules poussière
iluminent tes traces, contournent ta face
nous revèlent sans lace, un sourire
d'un silence qui crie, sans rien dire

les delices des arômes
claires nuages, sort de brumes
chaleur de couverture
oreiller de plumes

particules de vie
la jalousie

Fortaleza, novembro de 2010.

domingo, 28 de novembro de 2010

VELO(FERO)CIDADE DA LUZ(IA)

Luz ia, ia e vinha, Luzia
Linda, loura, louca, rouca
Falando, rindo, cantando
Palavras e gestos ganhando forma de boca

Fortaleza, novembro de 2010.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

SERTANEJAR

Sol é nota musical
Se for luz de muito faz mal

Na sombra o vento matinal
Na sobra rua tua a gota infernal

Saudade de sombra e sol
De peixe isca e anzol

Ralinho bem ralinho
Lá conhecia bem o caminho

Fortaleza, setembro de 2010.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

SEGREDO DE SOL SE PÔR

Se por acaso for o caso
De cochichar bem baixinho
Falando mansinho em um tom pequenininho

Cuida para que não seja carinho
Nas nuvens tudo é macio feito algodão
Colchão de espuma ou mola e toque de mão

Segredo de liquidificador
Contado à luz de sol se pôr
Pode virar livro de amor

Fortaleza, setembro de 2010.

domingo, 26 de setembro de 2010

CONTRAMÃO

Sem sentido
é quando batemos com a cara contra o muro
em um beco sem saída?

É como engolir um peixe inteiro com espinha
e engasgar-se com o ossinho da galinha?

Mesmo na contramão há sentido, o oposto ao nosso!

Fortaleza, setembro de 2010.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

FORCA (o joguinho)

Nem uma corrente de ar
Nem um tubo para respirar
Sentir a cabeça apertar
O olho estufar
O olhar esvaecer
O corpo amolecer
O sentido desfalecer
Não acordar
Apenas a corda no ar

Fortaleza, setembro de 2010.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

MATUR-IDADE

Sobriedade da idade
Sem maldade e sem vaidade
Nada queima de verdade

Só morno sem copo o corpo
Nada mais que um contorno

Sorriso demente
A alma nem sã nem doente
Faz parar o sangue na mente

Confuso expirado
Difuso fora de uso

Fortaleza, setembro de 2010.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

RESSONÂNCIAS

Somente a sombra da desintegrada honra
Que cai ao ritmo ofegante das horas

Sem força o ponteiro não anda
O disco arranhado já não gira de pesado

O balanço não balança
A hora não dança
Não mais tenho nos olhos
De brilho inocente criança

Reminiscências de um soluço
Daquele antigo pensamento moço
Agora ruído que de longe ouço

Fortaleza, agosto de 2010.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

DO SAL

Salgada é a água do mar
O tempero do molho de assar
Salgado é ovo para fritar
A lágrima que não quer pingar
O grito que teimo em calar

Fortaleza, setembro de 2010.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ROLETA RUSSA

Retratos recortes
Dados viciados
Manuseados por mãos fortes
Dedos curtos e vidas
Entregues à sorte
Cutucam a vara querida
Zombam da própria morte

Fortaleza, setembro de 2010.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

DO SEGREDO

Segredos guardados a sete chaves
Segredos falados baixo ao pé do ouvido
Em melodias de notas e claves

Segredo daquele que dá medo
Silêncio guardado na ponta do dedo
Que sibila e que toca a boca
Que mata gente quão serpente

Segredo que dá de fazer escondidinho
Sozinho a dois a três segredinho
Ou segredo sagrado bandido
Que do vulto popular já nasce banido

Segredo que assume forma de sombra
E segue persegue cuidadosamente velado
Ao passo que ao deslize do tambor desarmado
Pode sair a mil aos quatro ventos soprado

Fortaleza, agosto de 2010.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

PRESENTE DE GREGO

Taça rachada saia rasgada
A meia furada cair da escada
Entortar o bico da espada
Garfo torto bicho morto
Espelho quebrado disco empenado
Relógio parado garrafa vazia
Guimba queimada rotação alterada
Fogueira molhada lareira apagada
Bico do tubo de catch up entupido
Palito de dente mordido
Palito de dente sem ponta
Sela que a gente não monta
Espirrar em público
Medir em metro cúbico
Nadar sem sair do lugar
Fazer sexo e não gozar

Sensações como esta
De sair no final da festa
Depois de vomitar
Quando a banda já parou de tocar

Agora que o sino bateu
Não sei onde se perdeu
Mas se achar não devolva
Porque esse não é meu

Fortaleza, agosto de 2010.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

DA TERRA

De grilo de rã
De sapo-cururu
De caipora e tuiuiú
De névoa seca de manhã

De dama e de cunhã
De hoje de amanhã
De vizinha e de tardezinha
Do banho de riacho à noitinha

Do procuro mas não acho
Dos cabelos da trança e do cacho
De boca e de beiço sem dente
Do pensador de repente

Da mãe com filho doente
Do pai que espera impaciente
Virar homem o filho adolescente

A todos pertence esta terra
Do mais verdejante vale
A mais destemida serra

Fortaleza, agosto de 2010.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

SOLILÓQUIO

Sem correr na frente ou atrás
Sem medo sem querer
Sem beijo de rapaz

Um solo de sentimento
De fundo o sopro do vento
No rochedo o mar furioso
Invade a calma domestica a alma

Fortaleza, julho de 2010.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

MACABEANAS (Mais uma de Inês)

E Inês mais uma vez
Decepciona vocês
O canto de Inês é triste
Sua voz é rouca desafinada e ruim

A risada de Irene treme
Soa como um grito solene
Daquela que não tem pena
De alma tamanha pequena

Que em menos de uma estrofe de poema
Sem ilusões ou aromas de lavanda e alfazema
Nem notas melódicas na janela de um bandolim
Teve seu diminuto e macambúzio fim

Fortaleza, julho de 2010.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

CESSAR

Soberba lasciva e sórdida
Age escondida e mórbida
Sob lençol macio de uma lua de pérola
Segura nas mãos a adaga em pedra

De corte fino e cujo desatino
Tira dos sonhos o menino
Que sem a luz nem sol nem cor
Cresce botão mal fadado a não virar flor

E assim a vida finda
Sem saber mesmo ainda
Das dores e sabores do castrado sentido
Pelo delírio do gesto atrevido

Sem respirar sem encher o pulmão de ar
E nem sequer que por um momento
Com a força de um célere vento
Deixaria marcada a essência
No sabre da sua curta existência

Fortaleza, agosto de 2010.

domingo, 1 de agosto de 2010

O CANTO DE INÊS (Uma balada para Inês)

Inês canta
Irene ri
Na casa de Inês não tem alegria
Na da outra tem gente de noite e de dia

Inês preocupada Inês ocupada
Mesmo descabelada
Canta correndo nua
Subindo e descendo a escada

Irene faceira chega da feira
Guarda tudo e puxa a cadeira
E sem eira nem beira
Começa a rir

Inês chora Irene ri
Inês canta Irene ri
Chaplin ‘smile’
Irene ‘meanwhile’
Adivinha?
Ri

Para o canto triste de Inês
A realidade aponta
Irene ri
Da mira além da porta
A realidade torta
...

Fortaleza, agosto de 2010.

sábado, 31 de julho de 2010

DO CHORO

Lágrima
Da casta a mais pura
Arrasta molesta
Na cara o franzir da testa

Seu ar sem frescura
Sem frescor
Anestesia com dor
Uma saudade sem amor

Um nó o torpor
No miolo da cabeça
Como se na quarta
Ainda ouvisse o samba de terça

Das velhas cordas de aço
O mais fino descompasso
Do som da palheta quebrada
O choro na madrugada

Fortaleza, julho de 2010.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

MUDO MUNDO (SILÊNCIO E PAZ)

Morder o lábio o beiço o travesseiro
Calar a todo volume
Sair a galope ligeiro
Um golpe um tropeiro

Sentir como um leão furioso
Soltar um respirar frívolo gozoso
Dispensar a palavra ganhar a vida em gesto
Repousar as letras em um sono o qual não molesto

O mundo em silêncio
Silêncio de coerência
De medo e segredo silêncio
A vida em um livro aberto

Na longa trilha um passo certo
Decência inteligência malemolência
Silêncio um passo à frente da consciência
Paciência o contorno da existência

Fortaleza, julho de 2010.

SÁBADO

Vida nua
Verdade crua
Saudade tua

Fortaleza, julho de 2010.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

BEM-VIVER (CAIR SEM APODRECER)

Não ater nem deter
Sequer ter ou saber
Crer que mesmo sem querer
Sem dizer nem sei o que

A nossa pressão sobe e desce
Uma unha na mão cresce
A outra no pé apodrece
O dente que nasceu amolece
Cai e não cresce
Se não cair apodrece

É isso
Dizer crescer subir descer
Amolecer cair sem apodrecer
Mesmo sem querer
Até mesmo sem saber
Isso assim é que é viver

Fortaleza, julho de 2010.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

ISENTO

De sentido amargo
Só um trago mal pago
Não mais que um vago afago

Que de ti não se sente ardente
O trincar dos dentes
Possíveis atentos

Ao tempo e ao movimento do vento

Movimento o momento
Do não pensar

Parar de sentir me ausentar
De olhar de ver de tentar enxergar
De ouvir de cheirar de saber o gosto

No espelho
De ter que ver o rosto
De todos os rostos que gosto

Eximir-se de um mundo
Que na fração de um segundo
Pode te arrastar ao fundo

Fortaleza, julho de 2010.

terça-feira, 13 de julho de 2010

VERDADES RUAS

roucas as bocas
a roçar línguas loucas
vozes a falar a calar

fumaça cachaça
balburdia pirraça

um corpo que abraça
o outro que passa
um corpo que afaga
o outro que apaga
um que apraz
outro que jaz

Fortaleza, julho de 2010.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

DESENTALOS

Desentalar
Tiquetaquear

Cair leve, andar
Balançar, balançar
Sem dormir, sem sonhar

Espinha de peixe, jangada
Lançar a rede à parede, deitar
Enjôo de mar, de berço, saudade

O sal da idade, cidade, de ir e voltar
Correr e parar, às vezes, tropeçar

Lançar a rede à parede, deitar
Espinha de peixe, jangada
Sem dormir, sem sonhar

Balançar, balançar
Cair leve, andar

Tiquetaquear
Desentalar

Fortaleza, julho de 2010.

domingo, 11 de julho de 2010

ANGELUS

O sol já não mais arde
No sino o alarde
São seis horas da tarde
Hora de rezar

Fortaleza, julho de 2010.

DO SILÊNCIO

Digo mais nada!
De boca calada e carta selada,
não há o que se escutar.

Fortaleza, julho de 2010.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

VOLUPTUOUS DEI

abrupto meio corrupto
quase um susto
entre as putas e as batutas
um coreto próximo ao altar

de novo volta à puta
na majestosa luta
difícil quando mal andamos
e nem mãos nos damos

nada rima melhor com meus ais
meu cais e sais minerais

aí é bem bacante
bacana sacana
bom de cama

Fortaleza, julho de 2010.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

DA LIBERDADE

Soltos os nós que te prendiam ao chão
Posso voar saltar correr com paixão

Rir ou chorar
Andar sem cueca
Nadar como perereca

Banhar-se na água do riacho
Sem perder das uvas um cacho

De bananas as pencas
Das molecadas as rencas

Intensamente irrigar o chão semente

Dar corda e acordar
No relógio badalar

Sem diferenças não há mais
Nem menina nem rapaz
Entre céu e terra todos iguais

Poder vagar errar sem direção
Passos leves às vezes fortes demais
Guiados pela total falta de razão

De cada canto um acalando
Berço mar revolto
Hoje sou um bicho solto

E fazer o pranto secar
Com cristalinas gotas de ar

Fortaleza, julho de 2010.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

MATINAL

Ontem me vi velhinho
Lendo o jornal com atenção
Sentado à frente da televisão

Cortando os pelos do nariz
Um velhinho um tanto feliz

Um lenço macio atoalhado para que possa
Mãos meio trêmulas e com cuidado
Limpar meus óculos de lente grossa

Uma patroa cortando-me as unhas do pé
Um colo quente a me fazer cafuné

Uma raiz minha de bebê o cordão
Com um caule forte presa ao chão
Que em um susto como os meus grisalhos
Cresceram da noite para o dia seguinte
Vi-me na vida um ouvinte

O passeio matinal com brisa leve e sol manso
Uma parada na padaria assim não canso

O pão quentinho vem em saco de papel
Vai ganhar em casa
Manteiga geléia ou mel
Pego a bengalinha e arrumo o chapéu

Ao chegar o café quentinho
Queijo branco e ovo mexido
Com pão bem casadinho
O remédio da pressão
E um tranqüilo cochilinho

Fortaleza, junho de 2010.

terça-feira, 22 de junho de 2010

PÃO QUENTINHO DE PADARIA

Sair de ti e de mim
Como quem diz a que vim
Em um dia assim
Sem muito não com um sim

Misturar ingrediente
Pôr na forma de fazer gente
Levar ao forno pré-aquecido
Das luvas esquecido

Fazer crescer o fermento
Inchar a massa e esperar
Moldar esculpir com a mão
Pinceladas de doura-pão

Esperar mais um momento
Depois assar e desenformar
Em superfície de papel manteiga
Eis a arte de procriar!

Fortaleza, junho de 2010.

domingo, 20 de junho de 2010

BOLHAS E ESCOLHAS

Sorte por se estar só
Não ter batata quente na mão
Se o vento sopra em uma só direção
Decidir pra que?

Não precisar dizer o que fazer
Não ter que fazer o que forem dizer
Dar ou ter satisfação
Satisfação pra que?

Nada mais perturba o sono
Nem ronco nem trovão
Nem mola de colchão
Sorte ou solidão?

Fortaleza, junho de 2010.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

DE SÃO PAULO A MARANHÃO (Sinon)

Sinon
O que falar de Sinon
Tudo de si non
Si non
Só coisas

São Paulo diz sim
São Paulo diz não
Dia vai à paulista
Vai-se a Paulista
Diz nunca não vai mas dia de culpa é sua

Há foda na paulista
Ou se fôda em outra direção
Ou não
Eu me fôdo no resto
Na paulista nunca não

Vou fazer isso
Vou na paulista pra bater no coração
Talvez dia sim talvez dia não
Não ela se lembre d’Eu
Dia som dia não

Sem sequer tocar o chão


Fortaleza, junho de 2010.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

ÚNCIO

Anúncio
Prepúcio
Longo ou curto
Faz único
Úncio
Úncio é vida
É ferida
Cicatrizada ou não
Úncio é perdão
É o que faz acontecer
Liberta não põe na prisão
Úncio
Faz da vida um Úncio
Senão
Eu núncio
Um não
Vermelhidão
Da vida
Do chão
Do livre sim e do não
Sem Úncio
Está-se sozinho
Sem boca
Sem sim nem não
Sem ser livre e sem perdão

Fortaleza, junho de 2010.

domingo, 13 de junho de 2010

TACONES LEJANOS

De salto eu grande
Eu alta eu pequena
Seja menina ou um simples de cabelos grandes poema
Uma menina mulher
Seja ela o que quer
Fica lá fica cá
Vai e volta
E dança e encanta
Ela brinca
Ela samba
Respira Buenos Aires
Fala espanas canções
De brotos botões
Palomas e plumas
De águas e brumas

Para Palomita Toimil.
Fortaleza, junho de 2010.

MEIO ÁRVORE MEIO CHÃO

Eu vi uma árvore que floresce pela metade
Mesmo no inverno
Mesmo no verão
Metade dá flor sim
Metade dá flor não

Seja seca ou chuvão
Ela é meio louca
Tá sempre assim
Flor sim flor não
E nem é árvore de flor

Mas é árvore
Brota do chão
Então é igual
A todos os pés
De rosas gerânios ou qualquer flor em botão

Sou árvore
Metade de mim virou flor a outra não

Fortaleza, junho de 2010.

DIA-A-DIA (FAIXINA)

Pensar
Tentativa quase útil
De tornar mais agradável
O que todos chamam fútil
Ou vulgar

Colocar tudo em seu lugar
Tentar arrumar
Distribuir e organizar
Palavras de ordem do dia

Dia-a-dia
Queria ah como eu queria
Que da mais profunda alegria
Fosse simples assim
Minha melancolia

Fortaleza, junho de 2010.

sábado, 12 de junho de 2010

LUMINESCÊCIA - LUZIR

Sair do ventre
Difícil
Quando uma vez se diz entre

Parto e aparto
Pernas e vidas
Ditas queridas aparecidas

Dantes semente doravante sente
Alimente aumente impotente
A mente no peito não mente

O leite deleite
Dê leite
Sombra e som

No choro a mão
Da mãe o pão
O sim quando não
O cheiro no colchão
Pro sono a canção

Fortaleza, junho de 2010.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

DELUXE

Sofisticação
Não vais querer saber
Não vou saber dizer
Coisa ligada à psiquê

Champagne oxalá
Tomar saquê comer caviar
Querer algo pra relaxar
Caipirinha nem pensar

Ofurô óleos e sais
Terapia com cristais
Vittel St Pellegrino Evian Perrier
Outros minerais

Nostalgia da indigência
É saudade da pobreza
Isso aí meu rapaz
Sofisticado demais

Très sofistiqué!

- Sofis o que?

Fortaleza, junho de 2010.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

FÉ OU BICHO-DE-PÉ

Fé é fé
Não é café
Nem bicho-de-pé

Saci-Pererê Curupira Caipora
Duende Fada ou Nossa Senhora
Há sempre uma crença
Na cabeça de quem pensa

Não crer em preguiça doença ou maledicência
Crer em força amor e inocência
Compaixão felicidade decência
Crer em doação saúde e paciência

Acreditar na mente visão e coração
Da boca sai sempre uma oração
A fé está na alma no pulmão e na palma da mão
Por que não?

Fortaleza, junho de 2010.

SOLTO

Desenlaçar o laço do sapato
Soltar os freios
Descer da alegoria e parar o carro
Que mascara o tato o olfato

Sentir o gosto lavar o rosto
Olhar-se no espelho sem o batom vermelho
Deixar a tez respirar o nariz espirrar
Fazer o cabelo despentear

E espiar pelo buraco da fechadura
Onde cabe a chave
Que abre a porta
E deixar a vida entrar

Fortaleza, junho de 2010.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O CÁLICE

Mim apaixonado
Menos falante
Mais calado

Da silhueta ao lado
Minha língua mole
Mais um gole

Fortaleza, junho de 2010.

NEM TULIPAS NEM LÍRIOS NEM MARGARIDAS

E eu aqui
A escrever poemas bravios
Que não navegam por rios
Nem por mares

Soluçam em cantares
Que da mais pura alma
Caso desejares
Poderás te apossar

E se calares
Um leve toque de marzipan
Far-te-á acordar pela manhã

Com a certeza de que nesse dia
Nem tulipas nem lírios nem margaridas
Trar-te-iam igual sabor à vida

Fortaleza, junho de 2010.

terça-feira, 8 de junho de 2010

SOBREPOSIÇÕES

Cortar as incertezas
Olhar e agir com mais clareza
Perder no som o sentido da beleza
De uma existência sobreposta

Onde máscaras
Sobras e contos de sorte grande
Desviam-se do altar gigante
Que exalta a força da balsa
Flutua sobre a espada tua

Na órbita desfigurada
De uma vivência trocada

Fortaleza, junho de 2010.

MANGUE

Tristezas mal contidas no tremular das palavras
No olhar hesitante
Na pausa constante

Um nó de marinheiro
Bem onde de um modo verdadeiro
Deveria sair esse dissabor primeiro

Soletrar ou torturar sinuosas vogais
Que em consonâncias mortais
Apreende-nos em angústias e lágrimas de sangue

Como um caranguejo de mangue
Submerso na lama faço minha cama

Fortaleza, junho de 2010.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

TAPA

Tapa na bunda
Tapa de tara
Tapa dispara
Cinco dedos na cara
Pra açoitar
Tapa pra calar
Pra fazer falar
Pra abrir ou pra tapar
Se estapear
Dar uma tapa tapinha tapão
Com a mão ou com outro membro
Sei não

Fortaleza, junho de 2010.

domingo, 6 de junho de 2010

LES ANGES

Les étrangers,
les être un jour.
Sont à toi, sont pour moi.
Les êtres anges sont partout,
sont des rois sont à moi.
Les étrangler par la voix
de la loi, car parfois,
l’étranger n’est que moi.

Fortaleza, junho de 2010.

BOCA

Quem tem boca vai a Roma
A Roma e a qualquer outro lugar
Porque boca é pra viajar
Pra falar e pra comer
Pra lamber e pra chupar
Boca serve pra se lambuzar
Por isso quem tem boca vai a Belém do Pará
E a Roma
Beije e coma
Sem parar

Fortaleza, junho de 2010.

sábado, 5 de junho de 2010

ACORDAR

Da alta armadura
Se salva a procura e uma loucura
Cáustico e distante
Do sonho do amante
Da fala desconstruída em um sonho
Na parede demolida
Um abraço tocar a mão
A saber o futuro perdido
O olhar trêmulo ir embora
A saber não poder o agora

Fortaleza, junho de 2010.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

SOBEJO

Sair de mim e de ti
Sair daqui
Ir para onde não haverá partir
Nem chorar nem falar
Trocar o correr por parar
Calar
Chegar
Deitar e sentir o vento soprar
Indo e vindo na direção do mar
O cheiro do teu pescoço
Comer a fruta e chupar o caroço
Lamber o beijo
Sugar teu sobejo
Nem ganhar nem perder
Só a minha paz e um desejo

Fortaleza, junho de 2010.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O PREGO

Sozinho como um prego
Vivo preso amarrado pregado
Em uma parede a estórias e um legado
De histórias e corações
De marchas e canções
Alimento-me de uma linha torta
Sustento uma rima morta

Fortaleza, 2010.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O VERMELHO DE VERDE E AMARELO

À mão estendida
Existência interrompida
Através do vidro um sinal
Luta entre o bem e o mal
À espera da hóstia consagrada
Forjada no vil metal

Do verde esperança a espera cansa
Amarelo cheira a ouro enquanto sol queima o couro
Reflexo do vermelho o sangue beijando o espelho

Fortaleza, junho de 2010.

terça-feira, 1 de junho de 2010

NOTAS DE AUSÊNCIA

Na saudade e no desespero
Nunca se encontra um jeito
De dizer não com esmero

Na seca garganta a palavra
A ressequida saliva
Que umidifica com sabor de oliva

Não sinto o teu beijo
Sequer um lampejo
De um mundo hoje sísmico

Desafinadas canções
Retorcidas por um desejo
De perdidos solfejos

Fortaleza, 2010.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

MONTES

Que monte e desmonte
Aos montões
Rimas versos e óbvias canções
Rouquidões perfeições
Borboletas pequeninas
Lavando e ensaboando
No meu pomar
Corações e orações

Na fábrica de chocolate
A sereia canta
Sonhar-te

Fortaleza, 2010.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

SOU LÁ OU SOLAR

Hoje estou a fim de falar
De beber
De comer
De foder
Sem saber
Se amanhã solar ou
Se amanhã eu não sou lá
O não chovear
O não gargantear
Será meu ou de quem será?

Fortaleza, 2010.

NAMORO

Rir e rir até cuspir
Ir e vir até sair

Sorrir chorar
Rir gargalhar até soluçar

Soluço é chato
Ficar sem respirar é chato
Sem falar sou grato

Na mesa o prato
No chiqueiro o pato
No natal o peru
No chão eu e tu

Fortaleza, 2010.

domingo, 23 de maio de 2010

ALHOS E BUGALHOS

Escrever o que?
Eis que vês o que?
Querer ver o que?

Ver nascer
Ver crescer
Ver morrer

Ciclo da vida
Ciclo menstrual
Ciclo das horas
Ciclo diário
Ciclo mensal
Ciclo anual

Aniversário
Berçário
Aquário
Armário
Abecedário
Escapulário

Cabeçalho
Cabeça-de-alho
Alho é bom contra vampiros
Preciso evitar o alho!

Se bem que não
Vampiro é ruim pro sangue
E alho é bom pro coração!

Fortaleza, 2010.

sábado, 22 de maio de 2010

TER-SE IDO

Seca a ama
O tarado mama
Do artista a fama

Para a doença farma
Para a criança a arma
Para o guardador o carro

Do carregador o trocado
Do pintor o traçado
Da artesã o brocado

Da paisagem o já sido
Para quem foi o já ido
Para quem morreu o jazigo

De quem nasce o umbigo
Daquela música a dança
Da pessoa a lembrança

Daquela ama boa
No leito o deleite
Daquele único leite

Fortaleza, 2010.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

ISOLAMENTO

Quem chega primeiro
Beco sem saída
Ir e vida
Será a morte uma corrida

No lenço somente tchau
Na boca do gato miau
Do cachorro au au
Do meu amigo sal

Que coma a minha carcaça
Que beije a minha couraça
E desarme toda carapaça
Para que assim no novo molde

A quem seja que incomode
Esteja dado o mote
Para daí em diante
Por detrás ou doravante

Seja ele e eu só
Sozinho com a minha passagem
Comigo e a minha imagem

Ninguém escrevendo
Ninguém lendo
Ninguém gemendo
Ninguém escolhendo

Somente eu
Chovendo
Amanhecendo
Anoitecendo
Escorrendo
O sangue descendo
Minha garganta bebendo

Da carne o osso
Da fruta o caroço
De mim o troço
De vocês não posso

Fortaleza, 2010.

NADA INTENSO

Eu ainda não falei
Do cantar triste da seriema
Nem vou falar
Eu lá quero
Seriema aflita ouvir cantar

Parece que tá engasgada
Sai pra lá
Quero mesmo é me deitar
E no mais pra ser sincero
Nem sei se quero falar

Fortaleza, 2010.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

MAR DE CAL

O sorriso escondido atrás da montanha
O milagre a espera jogo de perde-ganha
Fixa a estaca no solo onde o rio pardo
Calcifica o sólido árduo
De um encantado crescer por não perecer
Sem voar das asas as linhas
Dos frutos colhidos
Na fonte onde fui perder as minhas
Inocente esquecido do solo banido
Em um mar de cal da água só o sal

Fortaleza, 2010.

VÍRGULA

Não paquero, cortejo
Não amasso, beijo
Não como, degusto
Não me apavoro, tomo susto
Aqui e ali

Não fodo, faço amor
Não cago, faço cocô
Não durmo, repouso
Não mijo, faço xixi
Aqui e ali

Não digo não, pondero
Não fico nervoso, espero
Não dou murro, dou soco
Não falo sozinho, sou louco
Aqui e ali

Sou assim, meio assim
Fraquinho, franquinho
De mim, tadinho!

Fortaleza, 2010.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

CALOR INTENSO

Chaleira em fogo alto
Água fervente
Café no bule
Mesa posta
Paixão demente
Sol quente
Nada disfarça
A dor no dente

Fortaleza, 2010.

GARANHÃO

Essa vox fresca orvalhada
Coisa boa coisa estranha
Garanhão que manha
Que manha que manhã

Fortaleza, 2010.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

ETÍLICA

Meu drink está quase pronto
E Eu estou quase tonto

Fortaleza, 2010.

QUERER

Saber receber ganhar
Sem pedir só se entregar
Recebendo sem saber o presente
Que te levará
Para lá para cá para longe
Junto ao mim junto ao mar
Junto ao luar espelho refletindo um olhar
Nele puro deleite o querer de um aceite

Fortaleza, 2010.

domingo, 16 de maio de 2010

DA VERDADE

Escorridamente mal dita
Escorre da mente bem dita

Fortaleza, 2010.

DA MENTIRA

Abjeta face escondida
Sorriso amargo
Passagem perdida
Lúgubre pretender enganador
De instantânea exaltação
Pensamento desvairado
Um cantar amontoado
Nota oblíqua distorcida
De uma súbita caída

Fortaleza, 2010.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

DAS PALAVRAS

Palavras que brindo
Palavras que brinco
Palavras que ouço
Palavras que mouco
Palavras que mudo
Surda à canção
Das palavras nada mais quero
Além de amor e perdão

Fortaleza, 2010.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

DO SOM

Sou solto revolto só
Próprio do dissabor
Apressado mas com amor
Cansado apático ou enigmático
A queda não sustenta o bem
O tombo não acolhe o mal
Corrente de sonhos rompida
Coerentes palavras escondidas
Corrida contra o tempo
Lutar com o cabelo oposto ao vento
Na janela
Passa ele repetidamente
Sem eira nem beira
Esvai-se
Mesmo que eu não queira

Fortaleza, 2010.

domingo, 9 de maio de 2010

IMPRENSA

É muito engraçado
Como sem ninguém ao lado
Simplesmente sai
Quase que atordoado
Palavras frases pensamentos
Meio que imprensado

Fortaleza, 2010.

E"Z"ERCÍCIO

Fazer poesia é escrever isso?
Queimar os neurônios até não agüentar mais?
Não quero escrever poesia
Quero acordar em ensolarado dia
De um frio que não me cause agonia
Dizer que estou feliz mesmo querendo
Que com o frio que está fazendo
O dia tivesse mais sol e mais alegria
Quero ser humano e cantar a mesma melodia
Reclamando que essa canção um dia
Possa tornar-se vigorosa poesia
Que nem meu queimado neurônio
Nem que já tivesse dado seu último suspiro dissesse
Esse poema
No auge da minha agonia
Seria o que logo logo eu saberia
Que somente em um certo dia
Cercado de sol ou ventania
Reclamações e agonia
É
O que eu chamo e para sempre chamaria
Vida

Fortaleza, 2010.

FIXO

Engraçado isso de alguma coisa ser fixo
Telefone fixo endereço fixo
O sufixo é fixo o prefixo também é fixo
E de fixo só somente o fixo
De que a vida não é fixo
O post-it não é fixo e amor não é fixo
Casa pai mãe irmão caixão vela e paixão não é fixo
Fixo é o que eu sinto agora
Porta adentro ou porta afora
Fixa e livre é a Conchita¹ que corre atrás de lagartixas no muro
Sem saber o que é presente ou o que é futuro

Fortaleza, 2010.
¹Conchita: a cadelinha vira-lata da família.

RIMA

Na mente um vácuo
E o que rima com vácuo
Deve ser nada pra fazer
Mas se fosse váculo ou suváculo
Rimaria com óvulo e óvulo rima com vida
Vida rima com sexo
Sexo com lampejo
Agora sim lampejo com desejo
Desejo de fazer coisa boa
Perdi a rima de novo
De novo rima com povo
Eu no meio do povo de novo
E quem nasceu primeiro
A galinha ou o ovo?

Fortaleza, 2010.

SANGUE

Tato poros nariz e pulmão
Por onde entra o ar por onde sai a canção
Boca unhas e dentes
Serrilhas de corte bem consciente
Sangue coração e pulso
Circular errante e latente
Não sente não mente corrente
Passa e conduz-me ao ar
Que traz teu cheiro me faz respirar

Fortaleza, 2010.

SOLO

O chão que te sustenta
Quando o fio arrebenta
Mesmo quando o pé não alcança
Indefesa a criança
Total descontrole do estar
Sensação completa de vagar
Vagar é como não ser
Viver não é rastejar
Correr voar saltar
Mesmo quando o chão insiste em escapar
Fica o espaço livre para navegar

Fortaleza, 2010.

RITMO

Poesia livre
Livre pra rimar
Rimar sem rimar
Fazer rir chorar fazer calar
Dois pra lá ou um pra cá
Que diferença isso faz
Quando o negócio é dançar

Fortaleza, 2010.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

ANSEIO

Poder dançar outra música
Cantar outra canção
Poder a cada dia receber um perdão
Das falhas navalhas
na carne
Despedaçada razão
Desperdiçada ilusão

Fortaleza, 2010.

sábado, 1 de maio de 2010

TERESA (SALGUEIRO)

Teresa canta
Encanta essa Teresa
E como Teresa canta
Grita gostosamente
Acaricia até a mente
Ô mulher semente
Semeia no seco
O coração de quem sente
Teresa é fogo
Fogo que eu vou
Calar nunca
Será?
Ah, Teresa
Alfama Céu de Mouraria
Beijar-te-ia

Fortaleza, 2010.

PASSEI-O

Passeio pelo meio
Bem no meio por onde passei-o
Estreito o caminho pá seio
Sozinho mesmo esteio
Passar novamente sem tocar o chão
Por onde passo e posso encontrar a paz
Ali dentro quente bem no meio

Fortaleza, 2010.

POLITICUS

Que me chupem as bruxas
Que me chupem as donzelas e os marmanjões
Só não me chupem vocês
Escrotões
Mandões
Chefes das confusões

Fortaleza, 2010.

PASSEIO

Lágrimas dançando ao bel prazer do vento
Explodindo na cara bombinhas de pólvora
Marcando com pintas pretas a fisionomia já cansada
Imóvel estática ao estalar das horas que só fazem castigar

O sabor da vida resumido ao momento
Por um tempo sem sustento
Bruscamente rompido pelo chamar da hora
Dúvida de se estar dentro ou se estar fora

Dócil seja a estrada
Dura sórdida insólita caminhada
Tua presença e teu alento
Fora do tempo e da gôndola que me leva

Sólida a paz que faz sacar a espada
E corta o fio no barco que me faz escapar e me leva ao mar

Fortaleza, 2010.

terça-feira, 27 de abril de 2010

ALICE

O cheiro desarma você
Vai com força
Até achar e adormecer
Tenho que matar o leão e escondê-lo atrás das ancas
Leões são isso
Nada me vem do nada
Apenas cores
Corte
Volta à repetida lâmina
Que corta a minha cabeça

Fortaleza, 2010.

domingo, 25 de abril de 2010

FUGA

Solene alma errante
De triste um espantar pensante
Escapar do inferno de Dante

Fortaleza, 2010.

TELÚRICO

Um anjo de asa caída
Um dia disse pra mim nem sempre é justa a vida
Cortaram-lhe as asas tiraram-lhe o céu e deram-lhe o chão
Minhas asas nunca cresceram a mim sempre foi dado o chão
Mas também deram-me o sol o mar e a canção.

Fortaleza, 2010.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

MENTE

E assim a vida segue seu curso
Nem tudo na vida é curso
A eletricidade tem um fio condutor
A mente, tem um motor.

Fortaleza, 2010.

BOLERO

Chega aos meus ouvidos com notas agudas,
uma canção triste de saudade.
Os mais moços também ouvem isso,
ou isso é coisa da idade?

Fortaleza, 2010.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

PARA UMA VIDA SAUDÁVEL (?)

Aprender a ser gente
Andar normalmente
Agir discretamente
Falar baixo e pausadamente
Comer elegantemente
Usar os talheres corretamente
Ganhar dinheiro legalmente
Sair para trabalhar alegremente
Ir ao dentista regularmente
Mastigar o alimento repetidamente
Assim é que é ser gente?
Quem disse isso, como mente!

Fortaleza, 2010.

terça-feira, 20 de abril de 2010

SERENO

Ver reluzir a brisa da manhã em que vou acordar
Sentir refrescar o cantar suave da tarde cujo sol vai tocar
Deixar- me carregar ao luar doce da noite em que vem me buscar
Chorar gotas de orvalho da árvore mais milenar na madrugada em que irei te deixar

Fortaleza, 2010.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

PARA OS DIAS DE SOL

Flutuar no tempo no vento
Pelo ar sobre o mar
O mar morto cujas vivas águas
Salgadas não nos deixam afundar

Soprar respirar flutuar
O ritmo das mãos a dançar
Fred Astairizar deslizar
Desafiar o peso do ar

Flutuar flutuar flutuar
Pêndulo que foge do relógio
E sai louco descompassado a badalar
Sem mais precisar das horas para soar

Sair de si e de mim
Deixar meu corpo e voar
Voar pra lá de pra lá
Onde não haja mais os sentidos
Onde tudo que há seja flutuar

Fortaleza, 2010.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

VOLUPTUS CARNE

A fina lâmina
Força branda do punhal
Tropeçar cair
Tornar-se estátua de sal

Despir sem pensar
Despetalar flor do mal
Mirar o olho da serpente
Pedido de alma indulgente

Nadar morrer na areia
Fugir do canto da sereia
Rugir como um leão ferido
Vagar qual um anjo caído

Fortaleza, 2010.

terça-feira, 13 de abril de 2010

BEIJO

Bebo sóbrio sobre a pedra turva a água límpida
Sobre a água turva bebo límpida a sóbria pedra
A pedra turva a água límpida que sobra e sóbrio sorvo
Límpido sorvo a água turva da tua boca pedra

Fortaleza, 2010.

domingo, 11 de abril de 2010

TATO

Mão que fura e que aponta
Mão que é sóbria mão que é tonta
Mão que espanca e que lateja
Mão que belisca mão que beija
Mão grande mão pequena
Mão nervosa mão serena
Mão que toca mão que dança
Mão que corre mão que cansa
Mão que chora e que ri
Mão que queima e que se queima
Mão que diz sim e diz não
Que toca a bruma e a onda
Que alcança o sol e o chão
Mas atenção
O tato não é só a mão

Fortaleza, 2010.

VIRA-LATA

De rua
D’alma nua
Dócil esperta
Deitada quieta

Cão de rua
Cão de alma nua
Dócil e esperto
Deitado e quieto

Fortaleza, 2010.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

SAMBA DE TERÇA (-FEIRA DE CARNAVAL)

Mulato de raça de roça e de praça
Passa sem graça uma lábia a encantar
Cantar um poema de morro ou de mar
Samba sincopado cadência de malandro
Mulato assanhado de sorriso brando
Falar encorpado molejo sem par
Cada qual com seu sambar

Fortaleza, 2010.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

DAQUI SE SALVA A DOR DALI

Arte de fazer má ave celestial
Flor do bem pétala de espinho
Um sabor agridoce de torpor bestial
Perfurado coração sangrando de passarinho
Só se lança em olhar brutal inocência de criança

Arte de fazer bem machucar alguém
Ave de rapina flor do mal
Uma verruga preta na cabeça do pau
Jato de sangue jorrando das entranhas ao além
Sobe a lança afiada que se lança em uma dança


Fortaleza, 2010.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

SÃO DOIS, PRA LÁ E PRA CÁ

Sentindo frio em minh’alma
Vi meu coração se acalmar
Mas o teu me atrapalhava
Me chacoalhando pra lá e pra cá


Fortaleza, 2010.

terça-feira, 6 de abril de 2010

PARA OS DIAS DE CHUVA

Medo de chuva? Não, gosto da chuva mesmo quando não há guarda-chuvas por perto. Molhar-se um pouco até que é bom, de vez em quando.
Medo de chuva? Não, quero está bem perto quando ela passar.


Fortaleza, 2010.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

JOGOS - SOCORRER OU SÓ CORRER

Solo canção
A vida suspensa por dois fios
Voz e violão

Sede mar
A vida cercada por dois mundos
Poder e cantar

Trapézio ou arame
Correr ou saltar
Morrer ou andar
Salvar socorrer
Mover-se parar
Sorrir sofrer
Chorar viver
Amar desesperar


Fortaleza, 2010.

EXISTIR ASSIM

Vi, susto sussurro
De mim para mim
Um soco um murro
Um muro sem fim

Caí, não existo
Existo sim
Não para ela
Existo por mim

Existir, assim sem fim
De mim para mim
Em uma troca de olhar
Existir é assim


Fortaleza, 2010.

IF I COULD

Manhãs, matinais, cafés, conjugais
Conjugando o sentido de nos termos sem ter, entrar sem saber, estar sem perceber onde vamos ter
Nossos outros canais, conjunções mentais de harmonia sagaz, sede voraz de nos estarmos bem
Que às vezes nos traz sensações naturais ou artificiais, fazer para beber teu ar e comer os cheiros assim, conscientes de mim
Descerrar lucidez, decretar languidez, na nossa casa aberta, janelas com vento, Yoda da luz
Porém, sem você, saber não dizer, sentir sem tecer o que pode ser sem fim.
If I could

If I could If I could
Like thinking I would
To be probably in the mood
Lay a hand on you that way
Feeling the strength of our course
Forged in wood and
All this, only if I could


Fortaleza, 2010.

SALTO NO INFINITO

A mesma coisa dita de forma diferente
A mesma imagem vista de forma diferente
A mesma forma de coisa vista diferente

Impressões espaciais locais perdidas e banais
De um sonho ou ilusão que ascende e não se apaga
Numa esquina ou nos sinais

Pobre esperança bandida
Que te espanca e te lapida

Pobre desejo esquecido
Amor não percebido
Vontade esquecida
De te ver e de ter
Só por um segundo a sensação
De um salto no infinito
E te fazer adormecer


Fortaleza, 2010.

UMA POESIA POR DIA

Hoje eu resolvi que iria,
Hoje eu decidi que ia,
Disse que ia, ia fazer
Uma poesia por dia
Uma pro sol nascer,
Uma pra anoitecer,
Uma falando de dor, outra falando de amor
Uma de paixão, outra de tesão
Uma amizade, outra lealdade
Saudade, idade, bondade, liberdade
Ação, reação, música, canção
8760 horas, 24 horas por dia
Uma por dia, 365, ou 6, por ano
Tudo que eu puder ser, ser tudo que puder dizer

Fortaleza, 2010.

TODO QUIETO

Quieto todo estava
Na minha frente, ela de novo
Um sorriso e, a vida me aprontava
Em um golpe, querer sem querer
Curiosos corações, a saber o não saber
Janelas abertas, da alma um brilho voraz
Estava quieto, agora não estou mais


Fortaleza, janeiro de 2010.